domingo, 30 de setembro de 2007

Combate do primeiro dia do resto da nossa vida




Há coisas que partilho com muitos outros e outras que possuem algum apontador para a obra de Albert Camus e que, tradicionalmente, nunca questiono porquê. Tal qual procedo para comigo mesmo, há uma parte significativa de nós que deve ser mantida como reserva. Por um lado por uma questão de recolhimento, pudor, mas também posse, egoísmo, narcisismo, vergonha, incómodo com a partilha; por outro lado, existe o problema das identidades, nem sempre estamos disponíveis para jogar o jogo dos outros.

Regressar aos livros e sobretudo às anotações de Camus é um desafio giro, porque não existe mais o deslumbramento dos 18 anos. Também não é tanto a pseudo-experiência da geração prateada. É o ter direito às minhas próprias observações e contradições. Deixei cair o pessimismo das borbulhas quase quase a seguir à descoberta do Mito de Sísifo e do Estrangeiro e vesti a T-shirt de lutador praticamente em seguida, o que me dá imenso jeito para olhar estas coisas com aquela despida sobranceria do ‘confieso que he vivido’ (Pablo Neruda). Vamos lá então distribuir algumas destas notas:


● Jean-Paul Sartre já depois de ter cortado a amizade com Camus, fazia gala de demonstrar a incompetência filosófica do meu amigo. Para Sartre a incompreensão é sobretudo a generosidade de Camus (aquilo que mais me atrai). Camus é muito especialmente uma tentativa de equilíbrio entre a «vontade de ser justo» e a felicidade proveniente da auto-estima. Posso não ter conseguido apreender bem o modo de estar de Camus, mas a sensação é sobretudo traduzida pelo comportamento do seu herói Meursault (L’Étranger): o narrador, é um simples empregado de escritório, com uma existência medíocre limitada pelo deixa andar dos gestos quotidianos e a recolha instintiva de sensações elementares. A sua vivência é uma espécie de torpor, uma estranha indiferença: no momento de agir, ele nota, habitualmente, que pode fazer isto ou aquilo que… «lhe dá igual».

● Um dia Camus escreveu: «Eu não sou um filósofo.» Percebe-se o cansaço de quem luta por se libertar dos ‘fatos à medida’ que os outros encomendam por nós. Adivinha-se a falsa indiferença de quem come o menu encomendado, sempre, pela solícita esposa. Trata-se de uma questão recorrente em torno do estatuto da obra de Camus.
Não me preocupa a etiqueta de hierarquização do estatuto de Camus: ser ou não ser «um mau filósofo» pouco me preocupa. Podemos sentir, claramente, as verdadeiras fontes da obra, por exemplo no rochedo de Sísifo, representação da imensa angústia do homem absurdo, contrário à figura romanceada do Estrangeiro que se torna numa incarnação da Diferença.

● Andam por aí uns ‘apuntes’ com paternidade de J.F.Mattei, penso eu com origem nos Carnets ou nos Cahiers, que dá muita leitura de Hölderlin na obras mais filosóficas, casos de : L’Envers et l’endroit, L’Homme révolté, Le Mythe de Sisyphe, enquanto que os escritos mais líricos como ‘Noces à Tipaza’ (não resisto a dizer que tive de lá ir em 1973, são 70 km a partir de Argel, na costa, entre a montanha e o mar) estão reconhecidamente influenciados pelas leituras de Heidegger.

L'indifférence à l'amour*
(*L'Étranger - édition Gallimard, 1957, pp 64-65)
"Le soir, Marie est venue me chercher et m'a demandé si je voulais me marier avec elle. J'ai dit que cela m'était égal et que nous pourrions le faire si elle le voulait. Elle voulait savoir alors si je l'aimais. J'ai répondu comme je l'avais déjà fait une fois, que cela ne signifiait rien mais que sans doute je ne l'aimais pas. «Pourquoi m'épouser alors ?» a-t-elle dit. Je lui ai expliqué que cela n'avait aucune importance et que si elle le désirait, nous pouvions nous marier. D'ailleurs, c'était elle qui le demandait et moi je me contentais de dire oui. Elle a observé alors que le mariage était une chose grave. J'ai répondu : «Non.» Elle s'est tue un moment et elle m'a regardé en silence. Puis elle a parlé. Elle voulait simplement savoir si j'aurais accepté la même proposition venant d'une autre femme, à qui je serais attaché de la même façon. J'ai dit : «Naturellement.» Elle s'est demandé alors si elle m'aimait et moi, je ne pouvais rien savoir sur ce point. Après un autre moment de silence, elle a murmuré que j'étais bizarre, qu'elle m'aimait sans doute à cause de cela mais que peut-être un jour je la dégouterais pour les mêmes raisons. Comme je me taisais, n'auant rien à ajouter, elle m'a pris le bras en souriant et elle a déclaré qu'elle voulait se marier"

sábado, 29 de setembro de 2007

Chove, chuva, molhada, minúscula, fria, chilena…




É este o Pablo Neruda de que gosto, de quem aprendi a gostar nas noites de Madrid, ao longo das sortidas da Residencia de Estudiantes del Império; o livro está datado por mim a 15-Dez-73 e um bilhete amarelo do Metro de Madrid, fixa a marcação deste poema:



Pablo Neruda - "Me gustas cuando callas..." en su voz



20 Poemas de amor y una canción desesperada



POEMA 15



Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.

Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.

Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle con el silencio tuyo.

Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Profissões e Títulos: vamos fazendo o caminho (I)



Nem todos temos o poder de sonhar e de esquissar caminhos novos (como faz Virgílio Machado – ler em especial Q11 a Q13 e Q18 a Q24), hipoteticamente apostando (nós) na ausência de bases culturais para encarar os projectos estratégicos como eles devem ser encarados, isto é a longo prazo. Porém, nada nos impede, antes ao contrário, porque não faz mal a ninguém, embrenharmo-nos na discussão crítica destas coisas, ganhando perfeição para os nossos argumentos, na maior parte das vezes a partir dos argumentos dos outros.

Uma antiga aluna minha, a que chamamos Magui, psicóloga (médica) com empresa de recursos humanos montada na praça pública, diverte-se imenso comigo numa troca, baldroca, de argumentos falaciosos, para não dizer sofismas maldosos, mutuamente contando histórias sobre o anedotário nacional-porreiro em que todos andamos metidos até ao pescoço e alguns mesmo até ao cabelo, entretendo-nos de quando em quando, também sonhando aqui e acolá, na hipótese remota de arrumar alguns paralelepípedos do caminho.

Este parágrafo que Regina Nabais deixou ontem a azul, nas nossas notas politécnicas, sobre a evidência de que um curso superior de 3 anos é um bacharelato, já fazia parte de uma das peças que eu montara anteriormente com a Magui, para explicar aos papás, mamãs e titis, de candidatos a instituições de educação superior, algumas vantagens que podem beneficiar o Quicas ou a Bibas, se estes se candidatarem a Engenharia Biomédica colocando Engenharia e Gestão Industrial em segundo plano (exemplo fictício). Também faz parte da peça, à moda de segundo acto, uma demonstração (hipotética) de como acumular mais pontos positivos se fizer a inscrição no IPP em vez de optar pela FEUP.

São extractos dessas peças que tentarei baralhar por aqui, nos dias mais próximos.

ALEMANHA

Na Alemanha existem dois tipos de engenharias:

- ciclo comprido (longo), de carácter predominantemente científico e orientado para a investigação, de uma duração de 9 semestres (na realidade isso custa aos estudantes entre 12 e 14 semestres, dependendo do programa) e que conduzem ao título Diplomado em Engenharia. Esta formação reparte-se pelas Universidades Técnicas e pelas Escolas Superiores Técnicas. Estes estabelecimentos de ensino estão habilitados a partilhar cursos de doutoramento.

- ciclo curto (breve), com uma duração de 8 semestres ( 2 deles correspondem a práticas empresariais); formação realizada em Centros de ciências aplicadas ou Escolas técnicas de dimensão menor do que as Universidades e muito vinculadas à indústria.

A excessiva duração destes estudos implicava uma entrada tardia na vida profissional activa. Por outro lado, foi verificado estatisticamente, que havia pouca atractividade por parte destes cursos. Assim, o Governo (1998) antecipou aquilo a que hoje chamamos Processo de Bologna (1999), alterando a duração e estrutura das graduações. Não só, outorgou maior autonomia às instituições de educação para criar programas distintos e lançou um novo sistema de acreditação.

Com esta reforma, cada estabelecimento pode criar livremente programas de Bachelor e Master submetidos a uma só acreditação:« a joint bachelor's and master's degree after four or five years» Nota: é isto que eu denomino Mestrado Integrado!

A substituição (lenta) do antigo sistema pelo Bolognês está prevista para 2010.

O novo sistema Bachelor/Master tem tido muitas dificuldades práticas provenientes das reticências com que a educação e a indústria o tem encarado.

E nas Universidades?

Tradicionalmente, as universidades alemãs mantêm cursos com uma duração de 9 a 10 semestres de formação teórica, constituídos por 4 semestres de formação de base e 5(6) semestres de formação “principal”. As duas fases constituem um único ciclo, no final do qual se obtém o diploma.

Com a reforma, as universidades devem transformar o seu programa tradicional de ciclo único e criar carreiras de dois ciclos: Bachelor e Master.

Se fosse à portuguesa, isto era feito num abrir e fechar de olhos, visto que eles já estavam estruturados em duas fases. Azar, os germanos são uns chatos e deram conta que Bologna tem uma lógica: o ciclo Bachelor deve ser de orientação profissional e deve permitir aos graduados o acesso ao mercado de trabalho, o que não corresponde ao ciclo inicial dos estudos universitários actuais.

Como não podia deixar de ser, o debate tem sido aceso e 9 universidades formaram um consórcio de resistência (Aquisgran, Berlim, Braunschweig, Darmstadt, Dresde, Munich, Hannover, Karlsruhe, Sttutgart) propondo que Bachelor é só uma etapa intermédia para o ciclo seguinte, enquanto que o Master seria a meta. Este plano foi seguido pelo DETI (U.A.), por exemplo para o curso de Telecomunicações e Electrónica.

O super-argumento é no sentido de que o Bachelor deve servir principalmente para aceder ao Master dentro do mesmo curso, por exemplo Gestão, podendo também servir para mudar de estudos (curso) ou para poder incorporar-se na vida profissional. Porém, só o Master é que deve ser considerado como título «normal» de acesso a determinadas profissões ditas de estatuto académico.

A agência de acreditação dos cursos de engenharia estabeleceu recomendações gerais sobre o conteúdo do programa Bachelor cientifico:

●Bases matemáticas e científicas: 20%

●Bases relacionadas com a especialidade: 25%

●Matérias da especialidade: 25%

●Matérias transversais: 15%

●Dissertação de final de curso: 12 ECTs

●Projecto: a determinar em função da especialidade

FINLÂNDIA

Este país do Báltico tem 20 universidades todas públicas, com cerca de 160000 estudantes inscritos e 29 institutos politécnicos com 130000 estudantes, dependentes das autoridades locais – financiados pelo governo central e autoridades locais ou consórcios municipais – alguns, poucos, são de carácter privado.

Temos aqui o sistema estruturado em dois sectores paralelos (o site da embaixada tem um esquema disponível na página). Os institutos politécnicos possuem de facto, uma orientação mais prática ou profissional do que as universidades.

Nas universidades existem 4 níveis: Bachelor, Master, Licenciado, Doutorado.

No nível post-Master existem na Finlândia, além dos doutorados, uns cursos pré-doutorais, opcionais, com uma duração de 2 anos e que dão direito ao título de Licenciado. É um título facultativo, prévio ao doutoramento e que não existe em todos os cursos.

Os estudos de doutoramento têm uma duração de 4 anos post-Master ou 2 anos post-Licenciado.

Com a reforma de Bologna, a educação superior fica estruturada em dois ciclos: um ciclo Bachelor, implantado em todos os cursos, com excepção de Medicina.

ATENÇÃO agora:

As universidades criaram um Bachelor de 180 ECTs e um Master de 120 ECTs.

Depois do Master é possível preparar o doutoramento ou a formação post-Master (não doutoral).

Os institutos politécnicos passaram a ter Bachelors de 210-270 ECTs (não me enganei, não) que duram 3,5 a 4 anos. Alguns destes Bachelors são concretizados em cooperação com a s empresas, ou seja, parte da formação é realizada na empresa.

Os Masters outorgados pelos politécnicos têm a duração de 1 a 1,5 anos (60-90 ECTs).

Na Finlândia cerca de 72% dos jovens são detentores de formação numa instituição de educação superior.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Falácias… leva-as o Povo



Até eu, defensor acérrimo de um espaço para os Politécnicos, livre, responsável, distinto, sem complexos de irmão de filho de mãe solteira e pai diferente, donos de BI e Passaporte digital, com salários e carreiras harmonizadas dentro de uma educação superior adulta, desempenada, com vontade de decidir na sua própria casa, gosto por energias alternativas e força bastante para serem propulsores de caminhos inovadoramente dignos, pasmo com estas notícias, que não possuem um facto, um só facto a servir de suporte à evidência:

«As notas a vermelho são minhas, Alexandre Sousa».

«As notas a azul são da nossa amiga Regina Nabais»

Portanto fica uma sonata a quatro mãos. Espero que gostem…


Diário Digital (21.Set.2007)
Politécnicos esperam melhorar imagem com Bolonha
Alunos e dirigentes dos politécnicos manifestaram-se hoje confiantes na melhoria da sua imagem em consequência da aplicação do Processo de Bolonha, já que o primeiro ciclo de três anos do ensino superior acordado a nível europeu assemelha-se aos bacharelatos.
- Nivelar por baixo é bom? Só é preciso saber ler, escrever e contar?
- Neste ponto, penso que o que ocorreu não se tratou de uma questão de nivelar, nem por baixo ou por cima, a verdade é que o Processo de Bolonha, pressupostamente, se deve orientar pela aprendizagem e esta orienta-se por sequências adequadas de conhecimentos cujo processo leva tempo. A verdade é que um período de tempo 3 nunca pode oferecer as mesmas condições de aprendizagem do que um de 5 anos, mas claramente a um outro nível.
Vão-me desculpar mas uma das grandes imbecilidades do nosso processo de «Bolonha» partiu mesmo das universidades ( que me desculpem as inocentes), porque quiseram que o 1º ciclo de formação de Bolonha, a nível de “undergraduate” fosse designado por «licenciatura».
O que quase toda a gente sabe é que uma formação, dita de nível superior, de 3 anos, é conhecida por todo o mundo por palavras e teros que sugerem a designação «bacharelato», cuja formação não era a habitual das universidades, mas sim do subsistema politécnico. E isto tem muito que ver com as filosofias de aprendizagem a dos politécnicos, socrática (salvo seja) partir da observação simples à generalização ou iniciando-se pela observação prática ou Aristotélica, da generalização ao particular, iniciando-se pela teoria.

«Para os institutos é mais fácil a adaptação ao processo de Bolonha», salientou Ricardo Pinto, presidente da Federação Nacional de Associações de Ensino Superior Politécnico (FNAESP), que hoje organiza um encontro nacional em Leiria.
- Fácil como Ricardo? Os Politécnicos não tem exigências de Rigor? Qualidade? Verdade? É mais fácil porquê? É só treta?
- Aqui, penso que o Ricardo tem razão, porque os politécnicos já tinham passado por sucessivas organizações curriculares que facilitavam a inserção num mercado de trabalho, menos exigente – sabem fazer as coisas (alguns até bem), sabem pouco porque é que é assim que deve ser feito, como sabem fazer, e ainda menos saberiam desenvolver sistemas.
Dessas sucessivas organizações destaco a possibilidade oficial Guterriana, dos politécnicos poderem passar também a leccionar acima do nível de bacharelatos (3 anos) a licenciaturas bietápicas (3+2), no idos no lectivo de 1996/1997.
O aumento do número de candidaturas nos institutos, que tem crescido em relação às universidades, é um «bom indicador» da mudança de imagem dos politécnicos junto da sociedade, considerou este dirigente.
- Vamos ser honestos… tá bem? Os Politécnicos obviamente beneficiaram das ordens do MCTES. A partir de 2010 (se Zé Mariano se mantiver a mandar) os Politécnicos terão mais alunos do que as Universidades. A imagem só muda quando mudar o cenário, a peça, o dramaturgo, o encenador, os actores, e temo que também seja preciso mudar o público.
- Aqui, penso como o Alexandre, só que de forma muito mais radical, tudo isto de facto não depende do Zé Mariano, depende apenas e só do público, e das nossas empresas que se espera que evoluam, mas não sei não….

Por outro lado, as regras de Bolonha, que dão oportunidades de formação semelhantes aos politécnicos e universidades, vão consolidar um primeiro ciclo de ensino de três anos, que é «muito semelhante» ao já feito pelos institutos com os bacharelatos, considerou.
-Então e Mestrados Integrados, não queres? Não queres lutar por Doutoramentos outorgados por Politécnicos de altíssima categoria?
- «Mestrados integrados» é apenas um conceito nacional-oportunista e criativo, para manter as sequências de aprendizagem tradicionais, sem terem sequer que pensar, e também para garantirem de raiz o financiamento logo à cabeça, por cinco anos, em alguns pares de cursos- universidades, e o Zé Mariano embarcou.
«A ideia são cursos adaptados ao mercado de trabalho» e «nisso os politécnicos partem em vantagem», explicou Ricardo Pinto, que reúne hoje em Leiria representantes das 41 associações de estudantes deste sub-sector.
- Esta afirmação é uma falácia, ou seja, é um pensamento (ruidoso) errado com aparência de verdadeiro. Faz-me lembrar a preocupação de um bom engenheiro (curso da U.Lusíada) que foi crucial num projecto dirigido pelo ‘je’ e que sistematicamente me lembrava o sítio onde tinha sido feito. E o ‘je’, maldoso, retorquia-lhe sempre o mesmo bitaite: - Imagina Zé, se tinhas sido meu aluno…
Vamos demorar uns anos até percebermos bem (se é que…) os factores críticos da empregabilidade que servem ao Ricardo para sustentar a falácia.
- Não tenho a certeza, mas o que penso que o Ricardo quis dizer é que existe melhor empregabilidade (esta no conceito emprego) para formações de curta duração.
Isto é verdade e verdade, infelizmente, comprovada em alguns cursos-instituições, mas só é verdade porque os formandos que transitam para o mercado de trabalho são uma espécie de pau para toda a obra.
Começam, por exemplo, por aceitar trabalho de lavar equipamentos (nos turnos da noite) de uma agro-alimentar, ou de vender pão no Continente, – actividades que não parecendo, têm muito o que se lhe diga – mas, paulatina e, progressivamente, vão conquistando melhores posições em empresas ainda de pequeno porte, até se tornarem Directores de Produção, Gestores da Qualidade ou Gestores de Inovação, num processo autodidacta, a pulso, lento e penoso de “lerning by doing”; mas lá que funciona, funciona muito bem!

Por outro lado, esta melhoria da imagem pública dos politécnicos está também relacionada com o trabalho de promoção dos institutos que têm apostado «na ligação directa ao mercado de trabalho», acrescentou.
– Deus meu, ajuda-me… onde está esta melhoria de imagem? Caiu do Céu? Foi decretada? Foi uma imagem nova planeada pelas direcções dos Politécnicos?
blablablablablablablabla…

«Em Portugal, os candidatos sabem que os institutos oferecem mais facilidades para a empregabilidade», salientou Ricardo Pinto.
– Nem sabem, nem acreditam! Perguntem à Hays, à FlexiLabor, ao Such, à ManPower, à Randstad, à SDO, à CRH, à Atena, à RAY,… Vá lá façam um esforço, dêem uma volta pela malta dos RHs. Volto outra vez atrás, as verdades são sempre mais difíceis de sustentar do que os bitaites largados no ar e vento como se fossem papagaios.
Opinião semelhante manifestou Jorge Mendes, presidente do Politécnico da Guarda e representante no encontro do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos, considerando que este sub-sector está a ultrapassar o «estigma» que tinha na sociedade portuguesa.
- Mal de ti Jorge Mendes, se assim não for. Não fazes mais do que a tua obrigação.

«É notório que os politécnicos estão a adaptar-se melhor a Bolonha» e isso também se reflecte na «capacidade de atracção» de novos alunos que têm vindo a aumentar em relação às universidades.
-blablablablablablablabla…
- Aqui, é mesmo para acreditar porque, havia até já formações politécnicas (1º e 2º ciclo de bietápicas) perfeitamente adaptadas a Bolonha, sem ser por Decreto/Despacho, e por sinal, muito mal feitos. O Processo de Bolonha tem quase 20 anos, e só não entrou, atempadamente, em Portugal, e em todas as instituições por causa da estrutura formativa das Universidades Publicas Portuguesas, porque ou elas ou os politécnicos iriam, seguramente, perder alunos. Conseguiram dar um nó cego na cabeça do é Mariano, e assim até temos essa aberração dos mestrados integrados, e a contra-corrente feita à aprovação dos mestrados em instituições Politécnicas.

Este dirigente espera que dentro de alguns anos, este trabalho de ligação às empresas e a opção por um ensino mais prático traga ainda mais benefícios às instituições.
-blablablablablablablabla…
-blablablablablablablabla…

«Sentimos que há uma mudança de comportamento» dos candidatos que vem «valorizar este esforço» que é feito pelas instituições, considerou Jorge Mendes.
–blablablablablablablabla…
- Não registei qualquer mudança de comportamento, o que há é maior facilidade de acesso na maior parte dos cursos politécnicos. Só quando o acesso a formações for homogeneizado, ou a diferenciação das formações for de facto consolidada – o que também é uma alternativa não explorada - é que saberemos se nos está ou não a passar a nossa embrumação mental, por mim, penso que ainda não passou nem será tão fácil de passar.

Diário Digital / Lusa 21Set2007

Há uma história giríssima, bem conhecida dos povos do sul:
«- Onde estavas Maria?
- Atão, estava pintando os lábios.
- Pr’a quê, Maria?
- Atão, pr’a ficar más bonita.
- Atão, porque na ficaste?»
Moral da história: Afinal, tenho que trabalhar o triplo, para ajudar os Politécnicos a trilhar o caminho a que têm direito; mas não queria que trilhassem o caminho que os velhos mestres lhes ensinaram. Esse, não será nunca o verdadeiro caminho das pedras. É que só há um caminho: - É mesmo o das pedras!

Nota técnica:
O autor, trabalhou que nem um danado para construir os caboucos da Escola Superior Aveiro-Norte, situada na aldeia industrial de Oliveira de Azeméis. Felizmente, está viva, tem perninhas fininhas ainda, mas interessa sobretudo que tenha cabeça, para trabalhar feio e forte com os homens bons das fábricas de OAZ, St.ª Maria, Vale de Cambra, S. João da Madeira, V.N. de Gaia, tal qual a fizemos.
Hoje, estou noutra onda, até porque a encomenda já foi entregue ao dono (agora é uma dona), mas mantenho o coração e o cérebro com tudo quanto tenho ajudado a criar. Se há coisa que nunca terá vida fácil é uma escola politécnica, seja filha de pais ricos ou da classe média baixa. Só mais uma coisa, que está aqui atravessada na garganta e não é sapo não:
- Os maiores inimigos que encontrei durante a gestação da Escola Aveiro-Norte, foram oficiais do mesmo ofício, ou seja, outros colegas, amigos e camaradas de escolas politécnicas. Será que isto acrescenta alguma coisa à minha pouca sabedoria?
- Alexandre não é o único a sofrer destas areias, e isto resulta só da nossa taxa de mudança de mentalidades não ter os ritmos que precisaríamos. Como o Alexandre mesmo nos disse, há que, antes, mudar o público.
E como me dizia uma das minhas avós: “…sabe que passar por contrariedades também é viver!”.







terça-feira, 25 de setembro de 2007

CERI (2006) – cenários – Segunda sessão


A Comissão Europeia y sus muchachos, ao longo do programa de trabalho para a educação e formação 2010, fez dele um alfobre de comunicações e recomendações sobre a necessidade (evidente) de adequação e modernização das instituições europeias de educação superior. Mesmo que grande parte da produção esteja escrita em europês, já consegui com pequeno esforço, extrair ideias legíveis.

Como fazer para que os financiamentos sejam usados com eficácia?
Como se consegue que Us & Ps obtenham fluxos de caixa adequados e sustentáveis?
Como conquistar autonomia e reconhecimento profissional quer no âmbito académico quer na actividade administrativa?
Como é possível tomar parte na corrente ascendente e pairar lá em cima no tecto do sistema?
Como estar de bem com o Processo de Bologna e ao mesmo tempo com a sociedade do meu país?
Como participar no suprimento das necessidades & estratégias locais e regionais?

Não tenho coragem (embora seja mentiroso) para afirmar que as propostas adiantadas pelo CERI (2006), mesmo tendo o carimbo da OCDE, sejam uma espécie de sina para o futuro. Podemos antes, ler, analisar, criticar, sugerir hipóteses que reflictam perspectivas diferentes susceptíveis de servir como uma base para a acção.

O primeiro cenário tem por etiqueta «rede aberta» e nele, a educação superior faz parte de um tabuleiro internacional, onde as peças são representativas de numerosas e grandes instituições. O princípio orientador tem muito a ver com a cooperação voluntária e menos com a concorrência entre Us & Ps. Os estudantes, agem com bastante liberdade, desenham o currículo dos seus estudos, escolhem cursos sejam presenciais, sejam ‘on line’, podendo recorrer mesmo ao GoogleMap para seleccionar os sítios que os certificam (a eles, estudantes). O inglês é a língua ‘franca’ para a educação superior.
O trabalho de investigação também é realizado em redes ou através de redes de cooperação, obrigando (aqui, ninguém é parvo), no entanto, a uma estrita hierarquia de instituições de sumo prestígio, possuidoras daquele aroma atraente de mel, projectos e fundos muitos.

O segundo cenário recebe a denominação de «serviço às comunidades locais» e aponta para um posicionamento orientado para a satisfação de necessidades de âmbito regional e nacional. O seu financiamento e administração são de cariz predominantemente público e apenas uma pequena elite destas universidades está vinculada às redes internacionais de investigação, mais prestigiadas. A grande maioria do grupo, dedica-se a actividades de docência e desempenham um papel menor no circuito das tarefas de I&D. Possuem uma boa relação com a indústria local, para quem desenham programas de formação e actualização e são muito activas no seio da cultura praticada pela população envolvente. A investigação universitária está muito comprometida com o tipo de ciência ‘gama’ voltando-se para as ciências sociais e para as humanidades, obviamente menos custosas em termos financeiros. As ciências ‘alfa’ e ‘beta’ são desenvolvidas por institutos públicos integrados em redes de cooperação internacional.

Temos ainda o terceiro cenário, «nova gestão pública» que mantém o financiamento público às instituições de educação superior, porém, com forte ênfase em novos sistemas de gestão que respondam às chamadas forças do mercado e com incentivos financeiros. Ainda que o financiamento público continue a ser determinante, existe ampla autonomia para desenvolver o modelo de negócio, atraindo estudantes estrangeiros, estabelecendo o valor das propinas (taxas), patenteando os resultados da investigação efectuada e aprofundando vínculos com a comunidade empresarial de modo a diversificar as fontes de receitas. A separação entre sector público e privado na educação superior desaparece praticamente, já que ambos os tipos de instituições concorrem entre si pela atracção dos recursos do sector privado e pelas inscrições dos estudantes que, com a liberalização, acabam por dar cobertura à maior parte dos custos de funcionamento das escolas. Há maior nível de diversificação do sistema educativo e, portanto, de especialização, de diferenciação entre as instituições. A principal vantagem competitiva reside na reputação da investigação académica realizada, ainda que também se considerem outros factores como a qualidade do ensino e a empregabilidade dos novos graduados. Os recursos para levar a cabo projectos de investigação são públicos e conseguem-se, nomeadamente através de projectos competitivos tanto a nível nacional como europeu. Prestação de contas, auditorias, transparência, eficiência, eficácia, capacidade de resposta e visão do futuro, são os principais factores para boa gestão pública das instituições.

Quarto cenário: «Educação Superior, SA» corresponde a um mercado totalmente liberalizado e globalizado, da educação superior. As Us e os Ps concorrem à escala mundial no mercado de serviços docentes e de investigação. Cada uma especializa-se no que sabe fazer melhor e concentra-se na comercialização dos serviços derivados das suas competências básicas, quer seja no âmbito da docência, quer seja no âmbito da investigação. Há uma forte concorrência para atrair estudantes e muitas universidades abrem campus no exterior e é frequente o franchising de programas educativos. Coloca-se uma crescente divisão internacional do trabalho, com a especialização de alguns países, como a China e a Índia, em determinados segmentos da educação superior. A investigação tende a concentrar-se a nível internacional (M.I.T. e Fraunhofer, p.ex.) e há uma forte concorrência para contratar os melhores investigadores. Os rankings internacionais jogam um papel muito importante no posicionamento competitivo dos centros de educação. O inglês converteu-se no idioma da investigação e dos estudos de pós-graduação, enquanto que as linguagens nacionais se mantêm nos estudos de graduação e profissionais.

NOTA TÉCNICA:O dono do blogue procurou manter a fidedignidade do texto original de um resumo dos cenários propostos no CERIS (2006). Como observação pessoal, direi que se nota nos últimos desenvolvimentos levados à cena pelo MCTES, uma proposta de futuro que contem alguns elementos de cada um destes cenários em âmbitos diferentes. Em qualquer caso, seja qual for este elemento, implica um importante desafio estratégico para as universidades e politécnicos actuais, que – a bem ou a mal – vão ter que se preparar para afrontar os ventos e marés proporcionados por estas alterações climáticas, e de uma vez por todas perceber que é preciso afrontar a nova realidade mediante a implantação de modelos de direcção estratégica que lhes sejam mais adequados.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Quem tem medo das Melhores Práticas?

Os futuros membros externos do Conselho Geral vão ter que levar muita sapatada naquela pandeireta até perceberem que, a maior parte do que se ensina/transmite/veicula nas escolas superiores, nomeadamente nos cursos de gestão e de engenharia, não é para aplicar nas entidades/instituições do mesmo sector.

UA adia início de aulas e abre novo prazo de inscrições

Atendendo ao elevado número de alunos dos cursos universitários que ainda não se inscreveram no novo ano lectivo, a Universidade de Aveiro dá início às aulas apenas na próxima Segunda-feira, 1 de Outubro. Um novo período de inscrições vai ser aberto, em data a divulgar até ao fim do dia 24 de Setembro. Quanto às inscrições nas turmas práticas e teórico-práticas, estas deverão realizar-se apenas no dia 28 de Setembro. De referir que o calendário de actividades da semana de acolhimento aos novos alunos (24 e 25 de Setembro) é mantido.

Nota técnica: Faltam cerca de 2500 alunos que não se inscreveram; ninguém sabe onde andam, nem se assinaram por outro clube, ou curso, ou se casaram com filhos únicos de pai estabelecido…

Os Serviços, irão adiar o período das inscrições, tantas vezes, quantas forem necessárias, até se encontrarem mais 2500 pascácios disponíveis e com B.I. válido; podem ser mesmo daqueles que tenham obtido a certificação do secundário a levar bandejas de cerveja ou a embrulhar donuts em papel de seda

Colocados 670 alunos nos Concursos Especiais

São já conhecidos os resultados das candidaturas aos concursos especiais, regimes de Mudança de Curso, Transferência, Reingresso, Titulares de Cursos Médios e Superiores e Maiores de 23. Se concorreu ao abrigo destes concursos, consulte a página dos Serviços Académicos http://www.sac.ua.pt/PageText.aspx?id=6736 e fique a saber se o seu nome está na lista dos 670 candidatos colocados. Saiba ainda que as matrículas decorrem de 24 de Setembro a 1 de Outubro, nos Serviços Académicos da UA.

CERI (2006) – a teoria dos cenários – primeira sessão



Nestas andanças de D.Quixote, Sancho Pança & Associados, dá para compreender que não há universidades excelentes. Recentemente, fui desafiado para fazer a trouxa e rumar ao Sul. O meu desafiador, tinha-me ouvido falar em Leiria, espicaçou-se com o meu panfletarismo, e vá de telefonar, emailar um convite, o que para um nómada de nascença como é o meu caso, significa aquele refrão da Lena d’Água: «quando o amor me chamar, basta fazer um sinal…».
No tal sítio, de que gosto muito, sentamo-nos calma e desassombradamente a falar daquilo que temos a presunção que sabemos falar. Na manga, eu levava apenas um esboço de comentários sobre um encontro da OCDE realizado em Atenas há 13 meses atrás. O meu simpático interlocutor sentado num bom cadeirão, confortável, daqueles à ‘prova de bala pelas costas’ várias vezes se sentiu encostado à ‘parede’ porque as nossas falas não coincidiam – estou à venda, sim, mas sou muito caro – e ele não me entendia sempre que eu murmurava, quase ao ouvido: - Troco tudo, por um grande amor…
A nuvem poirenta que sobrevoa a educação superior já andava no ar e lembro-me bem do incómodo que o Senhor do Sul evidenciou ao ouvir-me dizer com veemência que o status quo nada tem de defensável, sobretudo as grandes (tão poucas) universidades em geral. Irresistíveis forças económicas, sociais e tecnológicas mudaram o mundo em que se move a educação superior, por completo, e tornaram obsoleto o modelo identificado por quase toda a gente de topo, como sendo o seu (deles) modelo. A necessidade exige universidades altamente adaptáveis e líderes capazes de prosperar por entre a chuva ácida que vai caindo.
Falei-lhe na Universidade do Sul, numa revolução que até pode ser feita por conservadores de fato muito british todo às risquinhas, mas também disse que isso era só o fazer o «manual para uma revolução na universidade». Nenhuma das que estão por aí, muito menos o I.S.T. – e estou a dar por concluído o processo de emancipação – possui sólidas «ou sequer substanciais» vantagens competitivas. No meu entendimento parolo, a resposta que MH & Associados tem vindo a dar é a compra e venda de negócios «na esperança de se manterem na frente da curva do crescimento universitário». As escolinhas das regiões despovoadas vão expor factos que demonstrarão o «acelerado declínio da educação superior» tanto nas Us como nos Ps, ao resolverem as suas folhas de Excel com recurso aos «maiores de 23 anos» que chegarão ‘às pazadas’, catapultados pelo “Novas Oportunidades”.
Fusões e separações, só por si, terão muito pouco relevância no contexto actual: o meu veredicto pessimista é que esta compra e venda de negócios se destina apenas a «baralhar e tornar a dar» e não vai ter outro mérito que não seja o de fazer «apenas parte da loucura».
Todos percebemos que não há reitores, nem presidentes, maluquinhos por fusões, se os há por separações, esses, estarão a tomar uma rota irreal para resolver quatro megaproblemas. Primeiro, a previsibilidade fabrica-se; aprendi, quando tive a meu cargo a disciplina de econometria que: « os dados, se suficientemente torturados, confessam!». Segundo, o avanço tecnológico na educação e na instrução vai mudar muita coisa. Terceiro, esperam-se e desejam-se estudantes mais exigentes, com gostos mais diversificados e sobretudo mais sofisticados. Quarto, com a interacção destas forças, os velhos pressupostos foram dar uma volta com o Titanic.

Voltemos ao CERI (2006) e a alguns destaques da nossa leitura, tendo em consideração que não sei ler grego, que não são mais do que chamadas de atenção generalistas, mas bem intencionadas, assim à moda do «bem te avisei…».

Uma das consequências do processo de reinvenção da educação superior é a impossibilidade de conceber a actividade de qualquer instituição de forma isolada, sem estreito contacto com outras estruturas e organizações (empresariais ou não) que possam contribuir para chegar às metas traçadas.

domingo, 23 de setembro de 2007

Ao domingo, porque não falar de amor?!





Trabalhemos na introdução porque de metáforas e pensamentos mais que duvidosos anda o espaço Co-Labor cheio.

Ao domingo não é bonito falar de educação superior à ‘vol d'oiseaux’. O fogão está bem recheado de lenha (a arder), a horta já está regada, ou seja já cuidamos dos vivos. Está o preceito do Marquês em andamento. Em jeito de intelectual de fim-de-semana, direi que ando a reler “Os Problemas da Filosofia” do Mestre Bertrand Russell, com um prefácio didáctico de um senhor muito respeitado que deu pelo nome de António Sérgio.

Neste livrinho, o Amor não faz parte da lista de problemas que o Russell seleccionou. Não se pense que o amor não o preocupava:

The Prologue to Bertrand Russell's Autobiography

What I Have Lived For

Three passions, simple but overwhelmingly strong, have governed my life: the longing for love, the search for knowledge, and unbearable pity for the suffering of mankind. These passions, like great winds, have blown me hither and thither, in a wayward course, over a great ocean of anguish, reaching to the very verge of despair.

I have sought love, first, because it brings ecstasy - ecstasy so great that I would often have sacrificed all the rest of life for a few hours of this joy. I have sought it, next, because it relieves loneliness--that terrible loneliness in which one shivering consciousness looks over the rim of the world into the cold unfathomable lifeless abyss. I have sought it finally, because in the union of love I have seen, in a mystic miniature, the prefiguring vision of the heaven that saints and poets have imagined. This is what I sought, and though it might seem too good for human life, this is what--at last--I have found.

With equal passion I have sought knowledge. I have wished to understand the hearts of men. I have wished to know why the stars shine. And I have tried to apprehend the Pythagorean power by which number holds sway above the flux. A little of this, but not much, I have achieved.

Love and knowledge, so far as they were possible, led upward toward the heavens. But always pity brought me back to earth. Echoes of cries of pain reverberate in my heart. Children in famine, victims tortured by oppressors, helpless old people a burden to their sons, and the whole world of loneliness, poverty, and pain make a mockery of what human life should be. I long to alleviate this evil, but I cannot, and I too suffer.

This has been my life. I have found it worth living, and would gladly live it again if the chance were offered me.

.........................

.................................................

Óbvio que preocupava Russell, óbvio que nos preocupa a todos, mesmo quando passamos parte da vida a dar ‘xutos’ nas pedras.

Fui buscar Nietzsche por duas razões: uma sentimental, porque Camus ‘bebeu’ muito Nietzsche e interessa-me criticar (filosoficamente) as interrogações de Camus em torno do amor; outra, porque vejo Nietzsche tremendamente maltratado, como se fosse o eterno filósofo vestido de negro, por dentro e por fora. É esta sentimentalidade outonal, que faz com que publique uma foto de Camus a sorrir (coisa rara) e agora o retracto de Nietzsche a cores.

O texto de Nietzsche foi lido em francês (‘Gai savoir’ §14), uma vez que o meu alemão pouco vai além do «gutenmorgen Frau Clara», apesar do (formidável) tempo passado nos labs da Daimler-Benz em Karlsruhe. Diz então Nietzsche, que só costuma aparecer pintado a negro, a falar do suicídio e da inexistência de Deus:

“Cobiça e amor: que diferença no que nós experimentamos ao ouvir cada uma destas duas palavras! - e no entanto, poderia ser uma pergunta bem do mesmo impulso, sob duas denominações diferentes, da primeira vez caluniada do ponto da vista daqueles que já possuem e já só temem pelo seu «ter»; a outra tem a ver com o ponto de vista daquele que está insatisfeito e sequioso, e assim glorificado sob a forma do “bem”.

E o nosso amor ao próximo – não será uma aspiração a uma nova possessão? E mesmo o nosso amor ao conhecimento, à verdade e de uma maneira geral toda o ideal de inovação? Fatigamo-nos gradualmente do ‘mais antigo’, daquilo que nós fixamos já como possessão e recomeçamos com a ternura; mesmo a mais bela das paisagens, uma vez que foi vivida três meses não é certo que, mantenha o nosso amor, e não importa a costa mais remota que consiga excitar a nosso avidez: a possessão, geralmente, estreita o objecto possuído.

O prazer que nós tomamos pode manter-se desde que não cesse de se metamorfosear em algo, outra vez, - é isso o que nós chamamos possuir. Cansarmo-nos de uma coisa que um de nós tenha, isso quer dizer: fatigar-se a si mesmo. (Qualquer um pode também sofrer de superabundância, - ao desejo de rejeitar, de distribuir pode também atribuir-se a designação honorifica do «amor».)

Quando nós vemos alguém sofrer, nós oferecemo-nos voluntária e prontamente para beneficiar da ocasião que é oferecida e tomar então posse dele; é o que faz o simpático benfeitor, que também chama “amor” ao desejo da nova possessão que acordou nele, e sente nisso prazer como com se fosse um convite a uma nova conquista.

Mas é o amor dos sexos que nos traz mais claramente a sua natureza de aspiração à possessão: o amoroso quer o exclusivo total da posse sobre a pessoa que deseja com ardor, ele quer exercer um poder incondicional sobre a sua alma bem como sobre o seu corpo, quer ser o único objecto do seu amor, habitando e governando a alma do outro como o que existe de mais elevado e mais desejável.

Se prestarmos atenção ao facto, verificamos que isto não quer dizer senão subtrair a todos um bem, uma felicidade e um prazer de grande valor: considerando que o amoroso tem em vista empobrecer e espoliar todos os outros concorrentes e gostaria de se tornar o dragão do seu próprio tesouro, o mais impiedoso e o mais egoísta de todos os “conquistadores” e de todos os predadores: considerando finalmente que o resto do mundo aparece como indiferente para com o amor, pálido, desprovido de valor, e que está pronto para fazer todos os sacrifícios, para inverter toda uma ordem estabelecida, para fazer a passagem de qualquer outro interesse para segundo plano: qualquer um não deixará de ficar atónito perante esta avidez e esta injustiça selvagem do amor dos sexos, sempre glorificados e divinisados tal como foram sempre em todas as épocas, ao ponto de terem retirado deste amor o conceito do amor entendido como o oposto do egoísmo visto que ele é (talvez) precisamente a expressão mais ingénua do egoísmo.

São manifestamente os sedentos do desejo que fixaram este uso linguístico aqui, - foram sempre em número demasiado grande. Aqueles a quem a posse e a satisfação tinham sido concedidas em abundância neste domínio, deixaram escapar de tempos a tempos uma palavra sobre “o enraivecido demónio”, tal como o mais agradável e amado de todos os Atenienses, Sófocles: mas Eros fez sempre parte do divertimento destes maldizentes, - eram precisamente os seres que ele mais estimava. - Há na terra uma espécie de prolongamento do amor em que esta ávida aspiração que duas pessoas experimentam, dá lugar a um desejo e uma nova cobiça, a uma sede superior e a um ideal comum que os excede: mas quem conhece ou sabe deste amor? Quem o viveu? O seu verdadeiro nome é amizade”

Gai savoir, § 14

sábado, 22 de setembro de 2007

S. Sistema ou São Sistema, ou ainda Santo Sistema





Todos nós, sem excepção, já lá fomos em romagem, algum dia. Uns vão e voltam. Outros, tal qual as moléculas gasosas, agem pouco uns sobre os outros e cada um não presta grande atenção ao seu vizinho. Os químicos sabem fazer coisas extraordinárias, como por exemplo, conseguir misturas sólidas cujos átomos ou moléculas formam uma combinação homogénea. Como fazem eles estas maravilhas? Liquefazem primeiro as substâncias, misturam-nas no estado líquido e deixam depois solidificar a mistura.
É com estas soluções sólidas que a educação superior tem de lidar e é sabido, que os sucessos são raros.
Dizia Ferreira Gomes (19.09.07) e disse-o duas vezes em pontos diferentes da time base line, que (citarei de cor): «… o problema com o Conselho Geral não está nos 30% dos membros exteriores à instituição; o problema reside nos 55% de membros internos, estes sim, estes é que vão bloquear o Sistema!»

Ferreira Gomes é Químico, foi vice-reitor da U.P., candidato a reitor da U.P., tem os motores rodados como poucos, ao longo da construção da sua própria visão sobre o modo como as funções são desempenhadas pelos elementos do Sistema.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Porque gosto de ler Albert Camus?



Não gosto muito de explicar esta coisa, não sei se sei explicar, nem que estranha teia me envolve na escrita deste homem. Lembro-me de ir no comboio, no ascendente e no descendente, com o livrinho dos Carnets no bolso. A maior parte das vezes cheios de areia no meio das páginas, meios rabiscados por Bic vermelhas que eu usava na altura para tomar notas avulso, quase sempre das minhas ideias, comentários, interrogações, interrogações, interrogações…
Estamos a falar dos anos 60, quase chegados ao final da década, com muita cultura francófona na cabeça, livros, música e cinema. É giro, estar a escrever estes ‘apuntes’ e é como se fosse andando nos corredores da casa, subindo degraus e abrindo portas.
São diários do trabalho constante de Camus que a Gallimard publicou entre 1962/4 já depois dele ter ido embora (1960).
Os Cadernos são a pedra de toque da entrada de Camus no meu (?!) mundo. Edições «Livros do Brasil», impressos em Lisboa em 1966, tradução da Gina de Freitas e do António Ramos Rosa. Quase ao mesmo tempo são as duas biografias mais antigas, a do J-C. Brisville (1962) e a do Morvan Lebesque dado à impressão em 1967. Depois é uma torrente: ‘Mito de Sísifo’, ‘A Queda’, ‘O Estrangeiro’, ‘Calígula’, ‘Cartas a um amigo alemão’, ‘Avesso e o Direito’, ‘O Homem Revoltado’, ‘A Peste’,… tem de ser tudo de cabeça senão não vale. As notas de Camus nos Cadernos obrigavam-me depois a ir buscar originais que ele, homem sério, descrevia como fonte para alguns cenários ou pontos de partida; assim aconteceu com Daniel Deföe e o ‘Diário da peste de Londres’, mas também com Nietzsche, muito li Nietzsche santo Deus, sempre em francês, porque o meu amigo ‘Despenteado Mental’ tinha um tio em Paris que percebia da poda e sempre que havia emigrante a chegar ao Porto (S.Bento), era certo e sabido que trazia livros para o Mário, hoje sem barba, nem bigode, nem cachimbo, que isto de ser administrador da Air Liquide Portugal pesa e de que maneira. A loucura do Mário era mais Vietnam War, pelo que a filosofia seguia quase sempre a caminho de minha casa; excepção feita a Jean-Paul Sartre que nunca mereceu os meus favores, pese a amizade entre Camus e Sartre, mas eu não funciono por aí.
Estranhamento, retenho das biografias a vivência da Argélia, em especial Oran e Tipaza (de que guardo foto em 1973), sinto-me arrepiado ao ler a nota escrita, desta vez a preto mas seguramente por uma Bic: «Eu, por mim, entre o desespero e o NADA tenho ainda alguns passos possíveis a dar.». Era a ida para a guerra no dia em que voltasse a pôr os pés no imenso Portugal…
Outra nota que guardo de Camus é aquela forte intimidade proveniente de saber que ele gostava do cheiro da oficina de tanoaria em Argel, que tinha consciência da ‘traição’ feita aos seus que tanto precisavam dele para trabalhar e ganhar alguns francos, ao invés, ele na escola secundária e mais tarde no curso de Filosofia. Voltamos a ver Camus com este ‘fato-macaco’ na redacção do Combate (1944). Ele considerava tão nobre a profissão de jornalista como a de romancista ou de autor dramático, e o trabalho de tipografia interessava-o tanto como redigir um artigo. Todos conheciam Camus a participar com gosto no trabalho colectivo, a recusar assinar os editoriais, a observar a paginação no calor das máquinas. Depois da meia-noite, Camus abandonava por fim o «seu» jornal. Então – mas ele nunca o soube – os jovens redactores tiravam com o rolo uma prova do seu artigo e iam lê-lo e comentá-lo apaixonadamente no último café aberto.
Mal sabia Camus, que anos mais tarde, haveriam uns miúdos também de cigarro ao canto da boca, altas horas da noite à porta do Café Peninsular (Porto – Jardim da Boavista) a discutir à moda latina porque se não deve ser dogmático. Tanta coisa Alberto, que ficou…

Declaração de interesses



Acho bem que exista esta figura de estilo, agora que nalguns Partidos Políticos se faz força por eleições directas, embora eu seja um votante muito especial: voto raramente e sou adepto de que se dê mais importância ao acto do «não voto».

Como diz Virgílio no seu comentário à nossa vã cobiça de intervir no pós-RJIES. Retenho da sua prosa, mordaz, mas coerente como não podia deixar de ser: «Dou-me mal a colaborar em iniciativas com que não concordo.»

É isso que me coloca a maior parte das vezes fora da secção de voto.

Também porque (não) sou coerente e uso com muito orgulho a minha identificação com um animal peludo, voltarei a escrever – depois de congeminar durante um tempo mínimo – sobre uma questão política que a Isabel Ferreira colocou (19.09.07) ao «auditório» e que por razões de acústica é sempre muito difícil ouvir:

Isabel: - As escolas têm ou não têm autonomia? Verdadeiramente assumida?

Responderei eu e o meu amigo burro. Oh! Isabel, a mensagem do Zé Mariano, politicamente, pode resumir-se num anúncio de uma maior autonomia e responsabilidade para as IES, que têm de encontrar o seu próprio caminho; acrescentará o burro: - Para a sustentabilidade!

Zé Mariano também entra no diálogo: - Isto implica que se terão de implantar sistemas de governação e de gestão mais profissionais e rigorosos, que sejam capazes de superar a fragmentação das universidades em institutos, faculdades, departamentos, laboratórios e outras unidades orgânicas.

Diz o burro: - Oh! companheiro, apanhei-te em contradição. Então e o condomínio do Tagus Park de que usufrui o teu IST?

Zé: - Só os burros é que me podem acusar de ser promotor de um empreendimento imobiliário que não domino. Isso são jogos do MH. Não tenho nada a ver com isso.

Recordam-se todos, da primeira à terceira geração, da história ilustrada pelo cartoon que está no degrau da entrada. Esse mesmo, o inefável mullah Nasrudín e seu respeitável asno, que depois de múltiplas versões também veio a gerar «o velho, o rapaz e o burro».

Não sei, porque de múltiplas versões se trata, a quem pertence esta peça:

“…as unidades orgânicas devem contribuir para o somatório de esforços colectivos que dão consistência à estratégia da instituição, estabelecendo as prioridades e especialização (diria eu de minha lavra: diferenciação) nos âmbitos da investigação, docência e transferência de conhecimento para a sociedade.»

Fico sentado, nos degraus de granito, sem saber (ou não querer dizer) como se resolve este conflito:

(1) desenhar a estratégia

(2) disseminá-la por toda a instituição

(3) forçar as unidades orgânicas a trabalhar para os objectivos

(4) avaliar os indicadores fornecidos por todo o tabuleiro

E agora Isabel(es)? Como resolvemos esta charada da autonomia das Escolas?

Esqueceu-me o ponto de partida…

Declaração de interesses:

Filhos muitos. Canções da minha vida: as do Jorge Palma. Poetas de eleição: Cesariny e O’Neill. Escritor de fora e da juventude e da velhice também: Albert Camus. Escritor do pós-juventude: Mestre Aquilino.

Clube: azul e branco. Região do coração: Noroeste da Ibéria.

A sua bandeira (a do interessado): anti-dogmatismo; ontem, hoje e sempre.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Imaginemos…que existe a Lei da Conservação Social




Entre outras coisas que gosto de trabalhar conta-se uma, em que já não mexo à seguramente 12 meses e onde, graças à incubadora que me recuperou para a vida, periodicamente regresso.
Chama-se a essa espécie de coisa: simulação.
Gosto de brincar com simuladores, modelos, cenários, previsões fantasmagóricas ou simplesmente fazer de conta que sou bruxo. Sou um invejoso confesso do status do Padre Fontes (Vilar de Perdizes), se ele fizesse preço, digo ao mundo que: Comprava.
Quando ontem conheci o Cândido, desfiz uma série de preconceitos que tinha contra as pessoas que fazem do Direito uma obra, em que cada um diz o resultado da operação 3+2. Ainda bem que, de amigo em amigo, vamos conhecendo e amarrando forças para não sair na primeira curva do caminho. É que o Cândido trouxe-me à memória uma pedra que havia ficado no meu sapato quando começou a ser discutida na praça pública esta história do RJIES.
Quem já passou pela física, conhece(rá) de cor aquela expressão descritiva em que se representa o recuo de uma peça no momento em que se dá o tiro de um canhão. Não vou descrever a experiência da física (voltaria a ser plagiador porque não me lembro quem foi o Adão que escreveu isso em primeira mão): em termos muito simplórios, se reproduzirmos a experiência na bancada do laboratório ou no MATLAB, observamos que um tubo de ensaio cheio de água, tapado com uma rolha e aquecido por um meio térmico, entrará em pouco tempo em ebulição e passados alguns momentos a rolha sai ruidosamente, enquanto o tubo de ensaio se desloca para o lado oposto.
O fenómeno do recuo resulta necessariamente da regra da igualdade da acção e da reacção.
Zé Mariano, estudou o Gato de Schrödinger, óbvio que sim, mas antes disso estudou a física que Landau ensinou, e a de Newton, e a de … sei lá, Aristóteles?!
O sistema de educação superior é fechado, tem rolha, sendo essa rolha materializada por reitores e presidentes. Zé aqueceu o sistema ao lançar o RJIES e assim procedendo actuou na rolha, a rolha por sua vez actuou sobre o sistema mas em sentido inverso, divulgando propensão ao aumento da precariedade, anunciando a não revogação de contratos – fazendo isso mesmo selectivamente – e o meio que se movimenta no interior do sistema transmitiu esta reacção ao tubo de ensaio.
Passa-me pela cabeça que vos ocorra esta objecção: será possível que uma mesma força dê resultados tão diferentes?
Esperamos que a macacada que anda a pinchar nos blogues não faça observações deste tipo. É evidente que forças idênticas podem conduzir a resultados diferentes: a aceleração comunicada a um corpo (grupo de reitores e presidentes) é inversamente proporcional à massa deste. Devemos descrever a aceleração de um dos corpos (rolha por ex.) sob a forma de a1 = (F/m1) , sendo a aceleração do corpo que sofreu o recuo (RJIES) dada por a2 = (F/m2).
Não desempenhamos aqui o papel do aprendiz de feiticeiro e portanto, para atalhar, já que a banda larga está cara, lembrando-nos do carácter vectorial da velocidade podemos escrever: m1 v1 + m2 v2 = 0.
Dito assim e seguindo preceitos enunciados por Nietzsche, podemos colocar no outdoor o resultado antes do final do jogo: Zé Mariano + R&P = 0.
Regressemos então, um pouco atrás, à data em que publiquei na WEB um cartoon esmagador, desenhado por Rafael Bordalo Pinheiro. Deus meu, como Rafael conhecia bem este meu povo. Ficamos todos à espera que eles se demitissem.
Não me interessa o que pensam da alimária que tais coisa escreve. Dir-vos-ei, assim em jeito de conversa de pé de orelha, o que faria eu, se fosse reitor ou presidente da coisa.
Juntava os fiéis, os infiéis, graxistas e outros seguidores.
Distribuía o RJIES impresso, anotado e sublinhado nas suas passagens de recitação.
Educava e formava as pessoas e os estudantes mais chegados no tocante à construção do Conselho Geral.
Preparava Assembleias, quer em jeito de ver o que se vai dar, quer para ver quem se perfilava para a arrancada.
Sondava administradores do Millenium, BPI, SIC, não esquecendo o Cardeal Moura da TVI, para além desse alfobre fabuloso que vota nas assembleias da Portugal Telecom. Olhava bem para o parque de estacionamento da Universidade Católica evitando confusões e desmentidos avulso.
Não metia ninguém de PMEs porque é gente que tem problemas de cheque à segunda-feira e de logística à sexta.
Chamava tudo quanto fosse tele-jornal para uma comunicação às 20:10 horas em ponto para anunciar uma decisão sobre a demissão do cargo, em nome da justiça e da verdade.
Mas só quando o Conselho Geral estivesse construído, lavado engomado e alinhado no discurso.
Esperava pela próxima eleição mas, até lá, trabalhava feio e forte numa eleição garantida a 99,9% ou seja próximo do pleno.
Quem tiver curiosidade para ver este projecto desenhado ou quiser o esquisso, telefone para saber condições. Não esqueça: um mercenário é capaz de propor a venda da própria mãe mas, só entrega a mercadoria logo após boa recepção da transferência bancária.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

(Des)actar o nosso contentamento regulamenteiro


Estivemos hoje no Campus de Gualtar, abrigados do sol inclemente que castigava praxistas e praxados, mais as mães e pais fumegantes que, sentados, observavam as malfeitorias que as suas crias sofriam.

O nosso sacrifício era mais intelectual. Separando neurónios entre tendências optimistas e pessimistas, encontrando forças para empurrar o RJIES no sentido do arranque dos motores para a tomada de consciência do que querem dizer aquelas 32 páginas do doc PDF que está em distribuição pública. Alegremo-nos, pelo menos o texto do RJIES é gratuito e não impresso, enquanto não aparecer no Global, no Destak, no Metro Portugal ou até no ‘Meia-Hora’.

A audiência, não fugiu à regra do «quanto mais importante é melhor não aparecer»; depois logo se verá, até porque o reitor já está a tratar disso & etc.etc.etc.

A mim nada me surpreende, sinto-me bem no meio de minorias, não fui à festa do Dalai Lama, não sou a favor do Scolari, não tenho bandeira no carro porque nunca sei bem em que comunidade autonómica vou acordar amanhã e portanto, aqui estou para dizer de minha justiça, que o almoço frugal, composto por sopa de legítima penca (nos meus sítios chamam-lhe tronchuda…), robalo industrial acompanhado de verdura e batata simpática, mais dois ou três medidas de Alvarinho suave, foram preliminares de luxo, já que isto de ser professor, é de facto, outra loiça.

A contrapartida é esta: ter que relatar para a assistência, Alô, alô moça da favela, aquele abraço (este é pr’a Regina), Alô, alô, seu Chacrinha - velho guerreiro (este é pr’o Virgílio) aquele abraço, Alô, Banda de Ipanema - aquele abraço (este é pr’o MJMatos).

Não se zangue ninguém, o brilho esteve na simplicidade com que José Ferreira Gomes estendeu o puzzle e Cândido Oliveira pôs o dedo em duas ou três campainhas que não têm que ser de alarme, (só que…) não se esqueçam que este país tem séculos e séculos de história, alguma boa, mas também tem carradas de pulhice à espreita de cada esquina.

Perdoar-me-ão mas espero que JCR nos traga mais justiça sobre a visão de Ferreira Gomes; este, enunciou uma opinião de ‘connaisseur’, actor interveniente e activo nestas lides, homem muito lúcido, que se explica linearmente, tendo sido capaz de colocar em cima da mesa os eixos fundamentais segundo os quais se vai orientar o RJIES para bem e em alternativa o RJIES para o mal.

Ferreira Gomes é, como eu, crente nas potencialidades do RJIES, desde que este seja bem apreendido nos seus aspectos de novidade. Não vale a pena nesta fase do campeonato, com o árbitro sempre a apostar na antecipação das jogadas, tentar agora dizer que o problema é 4-2-4 ou 4-3-3. O problema é seleccionar os melhores defesas, os melhores estrategas, os melhores distribuidores e sobretudo os melhores concretizadores.

Pedro Oliveira, outro dos nossos comparsas de mesa e de charla, chamou a atenção para os aspectos pessimistas da Lei. Levantou questões sérias, como a autonomia das escolas, e sobretudo o posicionamento das célebres unidades orgânicas em todo o tabuleiro de jogo. Pedro tem muitas dúvidas. Bate no excesso de regulação, na minudência do pormenor, na rapidez/urgência de que Zé Mariano se serviu para nos deixar a todos com um certo sabor a pouca discussão.

Depois, quer Pedro Oliveira, quer Ferreira Gomes, fazem notar que a concepção, desenvolvimento e o fabrico do Conselho Geral, com a possibilidade de ser composto com base em proporcionalidade listeira, pode trazer lastro a mais a um processo que se gostaria mais célere. Aqui chegado, deixem-me dizer que não sou assim tão pessimista, primeiro porque os reitores fazem parecer que estão, mas na realidade não estão com pressa, depois, porque eu já assisti a várias produções de reitores e tenho uma secreta esperança de ir assistir ao longo da minha espera para a grande viagem, ao fabrico de alguns Conselhos Gerais.

Uma nota breve, para não esgotar a leitura do concorrente “Universidade Alternativa”, seguramente melhor actista do que nós, sobre uma insistência do Cândido e que não me parece despicienda: É melhor não deitarmos fora aquela treta das Universidades Fundacionais, porque aquilo tem regras muito ao gosto de Direito. Diz o Cândido Oliveira: - Cuidado… são artistas portugueses.

Um abraço de gratidão ao JCR por levar ao colo estes chatos e para aqueles 40 e tais serôdios e serôdias que nos estiveram a aturar, óbvio, aquele abraço.

Continuaremos a falar destas coisas até que a voz nos doa.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Há coisas que 9 meses, não dá para nascerem.




Lembro-me bem do livro de Tom Peters, ‘Na senda da excelência’, lido em português e perdido algures numa das minhas andanças de cá para lá e de lá para cá. Aí pelas páginas noventa e tal faltavam-me uma série delas, ou seja, elas estavam por lá mas em branco. Protestei no livreiro, mas sem êxito; o livro vendia como castanhas assadas em Novembro e nunca cheguei a ter o livro do Peters com as páginas todas. Todo este intróito para dar conta que, aquilo o que Peters escreveu no início dos 80s desmentiu nos livros seguintes, passou de divulgador da I.B.M., Procter & Gamble e General Electric a porta-voz da ala esquerdista da gestão, aparecendo como um crítico radical que clamava por mudanças extremas. Tom Peters tem o seu negócio estruturado e o negócio dele é vender livros e realizar seminários. Retenho uma daquelas frases do Peters, que se reproduzem aqui e ali, excelentes para ilustrar a capa de um jornal ou até para espicaçar os leitores de um blogue: “As oportunidades, agora, estão no proveito que se tira da instabilidade – isto é criá-las a partir da turbulência diária e da agitação do mercado”.
Foi isto que praticou TP ao longo da sua vida. Escreveu, baralhou, pensou, tornou a baralhar e tornou a escrever. Vendeu, vendeu, vendeu…
No remanso da sua quinta de Vermont, Tom Peters sabe que a I.B.M. sobrevive porque continua a caminhar o seu caminho.
A Universidade de Aveiro é uma das pequenas universidades portuguesas que vai fazendo o seu percurso caminhando, entre a estrada nacional 109 e a estrada nacional 1. Raras vezes olha em direcção ao Norte, não contrariando a maioria da sua massa crítica que pende tradicionalmente para Coimbra, numa tendência pequeninha para aquela ideia das terras barrentas, que deram telha, tijolo e abobadilha, leitões e espumante da Bairrada.
Mas, esta pequena universidade, tem um trajecto ‘sui generis’ que teve de ser recordado aos mais novos durante uma pequena fervura da água branda vertida durante micro conversas em torno do RJIES. Para algumas pessoas da UA que acreditaram na possibilidade do RJIES vir a ser um vento novo - observe-se que a UA já trabalha para a grelha da AAAES há bom e sossegado tempo - algumas novidades sopradas pelo RJIES vinham a favor das velas dos moliceiros. Às vezes a UA vira de rumo (eu diria, reajusta o rumo) com base numa estratégia dirigida por um reitor (foi assim com Júlio Pedrosa), olha para o seu território, contabiliza os seus recursos, vai ao encontro das pessoas que ocupam um espaço de mercado.
Quando o RJIES versão teste apontou para a chegada de pessoas do exterior até à porta do planeamento estratégico e da administração da universidade, muito boa e má gente da UA sentiu-se em casa. Isto tem que ser dito assim, à má fila, porque desde 2006, que algum ‘espírito santo de orelha’ andava a trabalhar aquela reitoria; não cai do Céu um professor catedrático convidado que é administrador de topo da Siemens, nem cai do Céu outro professor catedrático convidado administrador de topo da Bosch-Vulcano, nem eu caí do Céu na administração do Porto de Aveiro para desenhar o plano de marketing da futura plataforma logística, nem lá chegaram a Martifer, nem a BP, em trenó puxado a renas, and so one, and so one.

Por muito que custe à malta do Eduquês, mais à malta do Ambiente, gente da Cerâmica e do Vidro e outras coisas giras mas manifestamente insuficientes para dar corpo a uma universidade capaz de o dar (ao corpo) ao manifesto, isto foi andando, piano piano, porque o CET (Centro de Estudos de Telecomunicações) uma estrutura dos CTT, encomendou formação para os seus técnicos, em 1974. Estava a U.A. de fraldas nessa altura. O curso de engenharia de telecomunicações e electrónica foi o primeiro do género à época, em Portugal. Uma área nova, que levou a U.A. a ir à Grã-Bretanha contratar doutorados provenientes das ex-colónias ultramarinas, nomeadamente moçambicanos. A busca de conhecimento chegou aos Estados Unidos, onde a U.A. conseguiu convencer mais alguns investigadores a dar o salto para a Europa, para ensinar os novos alunos.
A U.A. vai levando a água ao seu moinho porque a generalidade dos departamentos se preocupa com uma coisa que, solenemente, o Comandante e mais o Zé Mariano chamam «empregabilidade». E como? Será que os cursos estão desenhados à medida dos empregadores? Não!
A nossa gente ainda não sabe fazer nada disso. O processo de Bologna tem sido uma prensa que pode comprimir uma amálgama de disciplinas e fazer de alguns cursos uma espécie de produto de beleza 2 em 1.
Os departamentos são pequenos e os cursos admitem pouca gente: entre o curso de Física com 20 lugares e os 110 para o curso de Engenharia de Telecomunicações e Electrónica (já catalogado sob a forma de mestrado integrado…), ou os 50 de Engenharia e Gestão Industrial. A empregabilidade obviamente é negociada com as pessoas de fora. Ninguém prepara estudantes da educação superior para trabalhar e se algum dia passar isso pela cabeça dos directores dos departamentos vão, inexoravelmente, perguntar a quem sabe, isto é, a quem trabalha.
A Bosch-Vulcano e a sua estrutura de TermoTécnica fica praticamente com toda a ‘produção’ anual dos engenheiros DEGEI, isso é importantíssimo, porque permite fazer passar os jovens por uma tina, dar-lhes um banho de imersão de planeamento, métodos, tempos, logística interna, sei lá mais o quê. São engenheiros mas trabalham durante um ano nos turnos da noite, como encarregados de turno, chefes de secção, porque sabem ler especificações, gráficos, tabelas e são capazes de redigir um relatório de não conformidade com laivos de eficiência. O mínimo de que a Bosch precisa é constantemente ajustado com as pessoas que vêm ensinar à universidade e voltam periodicamente à fábrica para ganhar estatuto, carreira, trocar de carro, etc.
A seguir, toda e qualquer fornada vai ser distribuída pelas 180 empresas que, em Portugal, produzem componentes para a indústria automóvel. Desde a Auto-Europa em Palmela até à Sunviauto em Pedroso (V.N.Gaia) seguindo para a Inapal ou para a Grohe, tudo é abastecido desde o ponto de partida Bosch-Vulcano ou de outra alternativa, o grupo Simoldes, 18 empresas localizadas na aldeia industrial de Oliveira de Azeméis.
O DETI negoceia com a PT Inovação, também agora com a Nokia Siemens, a quantidade de estagiários, ou de mestrados, ou de doutoramentos e em quê, e como, e quando.

Este RJIES não formalizou ainda, por falta de coragem, o como se consegue tornar visível todo este entrosamento entre pessoal de dentro e pessoal de fora, o alinhamento (mais fácil) ou a
a interpenetração (mais difícil) das estratégias, entre entidades de educação/formação e entidades da produção, por várias razões, porque a mudança é tudo menos pacífica e porque a nossa cultura é de profunda hipocrisia.
Se tivermos dois dedos de testa até somos capazes de compreender que o RJIES não tem nada que se meter com a estratégia, a táctica ou a operacionalidade da instituição X. As universidades e os politécnicos não têm – eu diria não devem – ser todos iguais. Devem pugnar pela diferenciação e se alguma instituição quiser andar mais fora do que dentro os invejosos não são obrigados a seguir exemplos de contrários e concorrentes.
A instituição propõem ao Estado o financiamento do seu programa de trabalho para os próximos anos e dessa negociação resultam financiamentos e ‘outcomes’ da educação. É no próprio contrato que estão as cláusulas e os critérios de avaliação e de memória futura.
O próximo passo segue dentro de momentos: os grandes projectos de I&D vão ser realizados cada vez mais, fora dos tradicionais espaços universitários.
A negociação e participação do pessoal dito académico vai ter regras distintas uma vez que o Estado não tem orçamento q.b. para acompanhar as propostas e os volumes de financiamento que são exigidos.
Por especial favor, alguns grupos europeus ainda vão condescendendo com a fita que o nosso MCTES faz, a dizer que a sua participação é X em Y, mas a prática mostra-nos alemães e finlandeses a sorrir e a comentar que o investimento português vem a pé, vai chegar sim, mas a passo. Isto é tudo uma questão de tempo.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Trend-related? com quê?


Estamos todos a olhar, cada um em sua direcção, para perceber que quase nada mudou.
O que mudou?
Enviesamento de mais alunos para o politécnico de acordo com a orientação do MCTES:
+ 1680 contra +524 nas universidades
Se esta tendência se mantiver...
Em 2010 teremos finalmente a distribuição alterada para 50,5% nos politécnicos e 49,5% nas universidades.

Reduziram-se 520 lugares nas ciências da educação e distribuíram-se irmãmente os acréscimos possíveis por todas as aldeias. Somos fabulosos nesta força estratégica telúrica.
Seria possível fazer melhor?
Quem sabe?… só quem já estudou estas coisas. Que alguém se corte!
Post-Scriptum
Estes são os números que lá vão constar na folha de Excel, quando no próximo ano, o MCTES vier apresentar 2008 versus 2007. Não vale a pena usar dados fora do prazo de validade, nem por antecipação nem por lobby.

sábado, 15 de setembro de 2007

Alguém sabe o que é um «espanta-espíritos»?




Confesso a minha proverbial ignoranza. Fui despertado para a coisa, por uma filha minha, ensinadora de aritmética e matemática a miúdos algarvios a quem teve de ensinar, primeiro que tudo, que os sinais operatórios existem e têm significado próprio.
A Luísa quis que a ajudasse a lucubrar uma série de aventuras que funcionassem como espantadoras dos espíritos juvenis e que lhes fizessem o tal clique capaz de motivar arte e engenho, sobretudo para efectuar operações de divisão. Espantado fiquei eu, cabecinha pensadora, que tinha por definitivo que os Portugueses já nascem assim, com uma espécie de sentimento inato para a divisão. Errado! Viu-se no coro socástico com que se defendeu o mítico Felipão. Já lá diz a cantiga do TOI (ou será TOY?) … se tens problemas, chama a Judite, chama a Judite.
Porque hoje é Sábado, dei uma volta pelos blogues dos amigos e conhecidos.
Fui ver a poesia das palavras e das imagens com que a Lucília povoa o seu
Conversamos?, passei a pente fino o De Rerum Natura e fiquei logo ali. Esqueci a promessa que anda aqui entre página e página de recuperar de cabeça (bom exercício contra a chegada do Alzheimer) uma conversa recente com César Nombela – faço um parêntesis para divulgar (à moda do carola vaidoso) que escrevo várias coisas ao mesmo tempo – não conseguindo deitar fora a foto reproduzida por Carlos Fiolhais, de um primeiro-ministro benzido + uma ministra ungida + uma porrada de histórias que me chegam de professores colocados no ensino inferior para ensinar matemática, sem terem turmas atribuídas, sem trabalho estruturado, sem desenho de programa de actividades, sem liderança disciplinar na escola, ao abrigo de uma coisa fantasmagórica que se chama qualquer coisa Integrado + qualquer coisa Substituição + qualquer coisa de Apoio + a desgraça deste país de picaretas falantes.

A família Rodrigues (M.ª João + Lurdes) é conhecida pela sua expertise em Estatísticas. O plural não cai aqui do Céu. Uma das senhoras mexia nas folhas de Excel que regulavam os números do desemprego quando exercia funções de ‘dona’ do Trabalho em Portugal; outra das senhoras, mexe nos números que balizam os progressos da nossa educação inferior, mas também já foi responsável pelos números da mediania da nossa educação superior. Que me não caiam em cima da cabeça os craques da heráldica e dos brasões, como o Sousa Lara do ISCSPU, que dos Rodrigues sabem eles, mas quem sabe do que fazem as Rodrigues, sou eu que sei.
O PM fala desvairadamente do insucesso, dos custos, da propensão a consumir educação e eu humilde, tal qual recorda VM quando diz que sonha em ser homem culto, vou buscar um livrinho para ofertar ao Comandante Sócrates: “A educação ateniense”, escrito por J.J. Barthélemy, muito antes de ter sido inventado o eduquês e de existirem na U.A. o Departamento de Ciências da Educação + o Departamento de Didáctica e Tecnologia Educativa, porque isto aos pares é outra loiça. O livrinho foi editado pela Editorial Inquérito, na colecção «cadernos culturais» e o preço do caderno é de 12$00.
Muito importante para políticos com agendas pesadas: Na página 78, está escrita a palavra FIM. Cada página tem por dimensões 187 x 120 mm. Ou seja, é livro para ler entre duas portagens da A1, ou até no intervalo entre duas bênções da Educação.
Bem hajam, Comandante & Irmã Rodrigues, benzam muito, mas benzam bem!
Post-Scriptum
Isto de recomendar livros ao Comandante tem virtude. Porque não, voltar a reler “A educação ateniense”???
Pág.ª 13: “Os habitantes de Mitilena, depois de terem submetido alguns dos seus aliados, que se haviam separado deles, proibiram-nos de ministrar a menor instrução aos filhos. Entendiam que o melhor meio de os conservar no estado de servidão era mantê-los também na ignorância.
Na definição lapidar de Platão, a educação consiste em dar ao corpo a força e a beleza que deve ter e à alma toda a perfeição de que ela é susceptível. Entre os atenienses a educação começa com o nascimento da criança e dura até aos vinte anos. Esse período não é longo de mais para formar um cidadão, mas não é suficiente pela negligência dos pais que abandonam a tarefa do Estado e da família, primeiro a escravos e depois a mestres mercenários.”
Juro que não fui eu quem escreveu isto. Parece um grafiti nos muros do CCB…

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Ler ou não ler, eis a questão



60000 Km/ano é uma boa desculpa para deixar livros em tudo quanto é sítio. Ainda hoje, revisitei um quarto onde estendo os ossos vai-não-vai aquele molho de palha. Sem preguiça, a primeira coisa que fiz, mal tirei as xanatas dos pés, foi reconstruir a pilha de livros que havia deixado encostada à parede voltada a norte; a casa é rigorosamente quadrangular e feita por pedreiros que conheciam a orientação seguindo os 4 pontos cardeais. Surpresa das surpresas: dá-se o meu reencontro com GEB: “Gödel, Escher and Bach” e respectivo subtítulo: ‘an Eternal Golden Braid’, obra de Douglas R. Hofstadter.

Há coincidências malvadas que não se explicam, é que por estes dias reúne-se em Lisboa, um bom grupo de maduros e maduras (mesmo que alguns sejam muito jovens ainda…) que discutem coisas aparentadas com a fascinante viagem intelectual onde nos leva Hofstadter. Confesso-vos o meu irresistível encolher no sentido da pequenez, eu que já sou um minorca, cada vez que passo os olhos pelas páginas onde se retracta o teorema de Gödel.

Mas a inquietante e arrevesada questão colocada por Hofstadter e uns tantos outros é realmente «como é possível este ser vivo, esta criatura humana, compreender-se a si mesmo?».

Não, não é hoje que vou mudar de ramo e finalmente, estender a minha banca na Baixa do Chiado, vendendo brincos de arame e ervas secas cultivadas nos lameiros de Vila Pouca de Aguiar. Hoje é dia de deixar transparecer o meu anarquismo libertário e reafirmar a minha abertura a todos os campos do saber, seja música, biologia, pintura, lógica, matemática, psicologia, neurofisiologia, equações diferenciais, filosofia ou linguagens de programação. Gosto da cultura seja ela de Vilar de Perdizes, da citânia de Briteiros ou do Centro Comercial de Belém.

O livro de Hofstadter é daqueles livros que levamos para aqui e para ali, até porque gostando eu de dormir no chão duro não uso «mesa-de-cabeceira»; tem sido lido de frente para trás e de trás para diante, exactamente tal qual vou (des) organizando a minha cabeça. Gostava de o ler de baixo para cima e da direita para esquerda mas assumo as minhas limitações ‘da Vincianas’. Dos três marcos apontados por Hofstadter, Bach é o que menos me entusiasma. Confesso não ser grande ‘Bachista’. Enterneço-me mais com umas pianíssimas ou mesmo umas violiníssimas. Vá lá eu digo: gosto de música erudita que me toque fundo, nos músculos da vida, se for só a pancada seca do martelo na mola de aço, não gosto, por muita harmonia que me reserve à partida. Bach é músico de melodias que nunca deixam de subir... com fugas de múltiplas vozes e engenhosos jogos musicais. Eh! Pá… mas também gosto das «24 rosas numa jarra», essa mesma, a do Zé Malhoa… e sei a letra toda… e sou homem para cantá-la em qualquer lado.

Escher, que comecei por admirar nos paradoxos visuais, nos contrastes, nas representações do impossível, ficou para sempre um exemplo como modo de olhar a representação de tudo o que nos passa pela cabeça.

http://www.uv.es/~buso/escher/escher.html

Pode um sistema compreender-se a si mesmo? Investigar este mistério é uma aventura que percorre muito especialmente, a linguagem.

Surpreendentes paralelismos ocultos entre as gravuras de Escher e a música de Bach (pode não ser-se apaixonado, mas conhece-se…) remetem-nos para os paradoxos clássicos dos gregos antigos e a um teorema da lógica matemática moderna que fez estremecer o pensamento do século XX: o de Kurt Gödel.

É possível definir o que é a evidencia? É possível formular leis que indiquem como atribuir um sentido às situações? É provável que não, pois toda a regulação rígida teria, indubitavelmente, excepções, e não regras [...] Então, se depois de toda a evidência é algo tão intangível, porque estou tão prevenido contra novas formas de interpretação da mesma? [...] Todos os teoremas limitativos da meta matemática e da teoria da computação insinuam que, uma vez alcançado determinado ponto crítico na capacidade de representar a nossa própria estrutura, chega o momento do beijo da morte: fecha-se a possibilidade de que possamos representar-nos alguma vez a nós mesmos de forma integral. O Teorema da Incompletabilidade de Gödel; o Teorema da Indecibilidade, de Church; o problema da Detenção, de Turing; o Teorema da Verdade, de Tarski: todos eles possuem ressonâncias de certos contos antigos de fadas, advertindo-nos que "perseguir o auto conhecimento é iniciar uma viajem que... nunca estará terminada, não pode ser traçada num mapa, nunca se deterá, não pode ser descrita".

Presidential Lectures: Douglas R. Hofstadter: Excerpts

http://prelectur.stanford.edu/lecturers/hofstadter/excerpts.html

Eu gosto destas coisas de manhã, ao romper da aurora, enquanto ainda não se fala nem se repete cacofonicamente a metateoria da aritmética política de Sócrates, Mendes & Meneses. Para saber mais, recorro a livrinhos da FCGulbenkian, a preços da uva mijona, como por exemplo: de William Kneale & Martha Kneale, ‘O desenvolvimento da lógica’, onde a última parte – 30 páginas – é dedicada precisamente a coisas tão prosaicas como esta do teorema de Gödel.

Nota técnica: Imitando Vítor Inconstâncio, revi em baixa as minhas previsões quilométricas; optei por terminar o ano em curso com mais páginas e menos fita métrica.

Escrever sobre um Livro não significa querer tirar leitores e visitantes a «De Rerum Natura»; continuará a ser um excelente ponto de referência no espaço de comunicação que privilegiamos.