sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Porque gosto de ler Albert Camus?



Não gosto muito de explicar esta coisa, não sei se sei explicar, nem que estranha teia me envolve na escrita deste homem. Lembro-me de ir no comboio, no ascendente e no descendente, com o livrinho dos Carnets no bolso. A maior parte das vezes cheios de areia no meio das páginas, meios rabiscados por Bic vermelhas que eu usava na altura para tomar notas avulso, quase sempre das minhas ideias, comentários, interrogações, interrogações, interrogações…
Estamos a falar dos anos 60, quase chegados ao final da década, com muita cultura francófona na cabeça, livros, música e cinema. É giro, estar a escrever estes ‘apuntes’ e é como se fosse andando nos corredores da casa, subindo degraus e abrindo portas.
São diários do trabalho constante de Camus que a Gallimard publicou entre 1962/4 já depois dele ter ido embora (1960).
Os Cadernos são a pedra de toque da entrada de Camus no meu (?!) mundo. Edições «Livros do Brasil», impressos em Lisboa em 1966, tradução da Gina de Freitas e do António Ramos Rosa. Quase ao mesmo tempo são as duas biografias mais antigas, a do J-C. Brisville (1962) e a do Morvan Lebesque dado à impressão em 1967. Depois é uma torrente: ‘Mito de Sísifo’, ‘A Queda’, ‘O Estrangeiro’, ‘Calígula’, ‘Cartas a um amigo alemão’, ‘Avesso e o Direito’, ‘O Homem Revoltado’, ‘A Peste’,… tem de ser tudo de cabeça senão não vale. As notas de Camus nos Cadernos obrigavam-me depois a ir buscar originais que ele, homem sério, descrevia como fonte para alguns cenários ou pontos de partida; assim aconteceu com Daniel Deföe e o ‘Diário da peste de Londres’, mas também com Nietzsche, muito li Nietzsche santo Deus, sempre em francês, porque o meu amigo ‘Despenteado Mental’ tinha um tio em Paris que percebia da poda e sempre que havia emigrante a chegar ao Porto (S.Bento), era certo e sabido que trazia livros para o Mário, hoje sem barba, nem bigode, nem cachimbo, que isto de ser administrador da Air Liquide Portugal pesa e de que maneira. A loucura do Mário era mais Vietnam War, pelo que a filosofia seguia quase sempre a caminho de minha casa; excepção feita a Jean-Paul Sartre que nunca mereceu os meus favores, pese a amizade entre Camus e Sartre, mas eu não funciono por aí.
Estranhamento, retenho das biografias a vivência da Argélia, em especial Oran e Tipaza (de que guardo foto em 1973), sinto-me arrepiado ao ler a nota escrita, desta vez a preto mas seguramente por uma Bic: «Eu, por mim, entre o desespero e o NADA tenho ainda alguns passos possíveis a dar.». Era a ida para a guerra no dia em que voltasse a pôr os pés no imenso Portugal…
Outra nota que guardo de Camus é aquela forte intimidade proveniente de saber que ele gostava do cheiro da oficina de tanoaria em Argel, que tinha consciência da ‘traição’ feita aos seus que tanto precisavam dele para trabalhar e ganhar alguns francos, ao invés, ele na escola secundária e mais tarde no curso de Filosofia. Voltamos a ver Camus com este ‘fato-macaco’ na redacção do Combate (1944). Ele considerava tão nobre a profissão de jornalista como a de romancista ou de autor dramático, e o trabalho de tipografia interessava-o tanto como redigir um artigo. Todos conheciam Camus a participar com gosto no trabalho colectivo, a recusar assinar os editoriais, a observar a paginação no calor das máquinas. Depois da meia-noite, Camus abandonava por fim o «seu» jornal. Então – mas ele nunca o soube – os jovens redactores tiravam com o rolo uma prova do seu artigo e iam lê-lo e comentá-lo apaixonadamente no último café aberto.
Mal sabia Camus, que anos mais tarde, haveriam uns miúdos também de cigarro ao canto da boca, altas horas da noite à porta do Café Peninsular (Porto – Jardim da Boavista) a discutir à moda latina porque se não deve ser dogmático. Tanta coisa Alberto, que ficou…

4 comentários:

Rosa Silvestre disse...

Olá Alex, então e o outro Albert?

Rosa Silvestre disse...

Dizem ser de Albert Einstein as seguintes citações.
Algumas já não terão valor algum no novo paradigma em que vivemos e outras somente teriam valor num outro paradigma que não o actual, mas num futuro....
"A imaginação é mais importante que o conhecimento.
A libertação da energia atómica mudou tudo, menos a nossa maneira de pensar.
A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho original.
A tradição é a personalidade dos imbecis.
O mundo não está ameaçado pelas pessoas más, e sim por aquelas que permitem a maldade.
O nacionalismo é uma doença infantil; é o sarampo da humanidade.
O ser humano vivência a si mesmo, seus pensamentos como algo separado do resto do universo - numa espécie de ilusão de óptica de sua consciência. E essa ilusão é uma espécie de prisão que nos restringe a nossos desejos pessoais, conceitos e ao afecto por pessoas mais próximas. Nossa principal tarefa é a de nos livrarmos dessa prisão, ampliando o nosso círculo de compaixão, para que ele abranja todos os seres vivos e toda a natureza em sua beleza. Ninguém conseguirá alcançar completamente esse objectivo, mas lutar pela sua realização já é por si só parte de nossa libertação e o alicerce de nossa segurança interior.

O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário.

Os ideais que iluminaram o meu caminho são a bondade, a beleza e a verdade.

Se A é o sucesso, então A é igual a X mais Y mais Z. O trabalho é X; Y é o lazer; e Z é manter a boca fechada.

Se a minha Teoria da Relatividade estiver correcta, a Alemanha dirá que sou alemão e a França me declarará um cidadão do mundo. Mas, se não estiver, a França dirá que sou alemão e os alemães dirão que sou judeu.

Tudo se deveria tornar o mais simples possível, mas não simplificado.

Nenhum cientista pensa com fórmulas.

Nenhum homem realmente produtivo pensa como se estivesse escrevendo uma dissertação.

A religião do futuro será cósmica e transcenderá um Deus pessoal, evitando os dogmas e a teologia.

Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta.

A imaginação é mais importante que a ciência, porque a ciência é limitada, ao passo que a imaginação abrange o mundo inteiro.

Detesto, de saída, quem é capaz de marchar em formação com prazer ao som de uma banda. Nasceu com cérebro por engano; bastava-lhe a medula espinal.

O estudo em geral, a busca da verdade e da beleza são domínios em que nos é consentido ficar crianças toda a vida.

A religião cósmica é o móvel mais poderoso e mais generoso da pesquisa científica.

A distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente.

O homem erudito é um descobridor de factos que já existem - mas o homem sábio é um criador de valores que não existem e que ele faz existir.

Não tentes ser bem sucedido, tenta antes ser um homem de valor.

Bom Fim-de-Semana

Alexandre Sousa disse...

Ei Rosa! por onde... por onde tem andado?
Só leio notas acerca da ressaca.
Ressaca deve ser a minha que regista férias convencionais - Setembro 1991 -
Tá bem, eu conto a verdade. Em outubro próximo, por exemplo tenho que ir uns dias para Santarém. Certo e sabido que vou viver uns dias ao longo do Tejo, mais ou menos na direcção da Central de Almaraz.

Ojo! Cada Alberto pertence a óculos, lentes, olhos de côr diferente.
O importante é manter sempre a capacidade de criar uma visão.

Um abraço

Blog da Regbit disse...

gostei de lê seu artigo de Albert Camus onde hoje faz 50 anos que este filosofo,jornalista, escritor desapareceu. Dia 4 de janeiro de 1960