segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Contas de taberneiro para pós-universitários


Todos nós, os que giramos à volta deste espaço de comunicação e possuímos etiqueta, pendericalho que diz: homem ou mulher de esquerda, direita, liberal, proxeneta e outros epítetos, que se reclama de ser pago dia e noite pelo Estado, temos necessariamente uma contrapartida da troca do dinheiro por serviços, já que, humildemente (assumidamente, no meu caso) só saberemos partir pedra daquela dita do intelecto, manipulando jovens aprendentes ou mistificando palavras e representações que serão difundidas mais tarde ou mais cedo por algumas e desvairadas gentes.

Olhando à nossa volta, presumidos e arrogantes, sorrindo displicentemente pelo bota-fora de Seabra Santos e M.ª Nazaré, para já, únicos representantes de uma fauna rara (sem desprimor) que se profissionalizou como reitores, vamos assistindo a este diálogo de feira – recomendo à segunda: Espinho e à quarta: Fafe – escutando enlevados o retorquir de Zé Mariano, como pode e como o deixam: - Hoje já dei, não posso dar outra vez. Apareçam pr’ó ano. Pr’ó ano há mais!

Recebi, excepcionalmente, dois convites bonitos para estar presente de fato e gravata, em eventos daqueles que trazem à luz do sol, ministros e outros sacrificados. Um, para ir à cidade grande sentar-me à mesa comprida e mandar uns bitaites sobre uma coisa interessante, que diz muito a grande parte do país (L&VT em especial) e outro, mais ao Sul, na cidade da luz e da conquilha, onde vão ser espraiados conceitos e evidências da novel inteligência das cidades.

A primeira ideia subversiva que assaltou a minha caixa neural foi a de perguntar quanto era o ‘cachet’?! Hesitei e não avancei. Temi pelo que haveriam de pensar de mim.

A segunda ideia, não menos herética do que a primogénita, foi sobre o arranjo contabilístico que permitiria à senhora reitora mandar pagar as contas do desvario: Transportes = tanto + Alojamento = mais tanto + Refeições = pouca coisa. Pensamento sonhador, que pouco vale. A senhora reitora diz que só tem dinheiro para pagar parte dos salários, pelo que quem quiser ir para «a-boa-vai-ela» vá ao Totta&Acores que a malta do Santander financia bacharelato, licenciaturas, mestrados, doutoramentos e saídas avulso de professores e outros estrangeirados para escapadas pseudo-intelectuais.

Terceira tentativa, escorregar como a enguia, por entre os dedos das autoras dos convites – só as mulheres é que são capazes destas bizarrias – dizendo que pois, também, assim é, a agenda está preenchidíssima (mentira…) e além disso já não acrescentamos valor, depois também damos umas aulas (às vezes…), andamos enredados em atrasos de projectos, esta coisa do Menezes também atrapalha, etecetra, etecetra, e vê lá se pagas a ida, mais o alojamento, que dizes?

O silêncio foi tonitruante.

Ainda estou meio cego devido ao relampejar das respostas.

Então eu não sou pago pelo erário público? Então para além de dar umas aulitas e escrever uns paperzecos não tenho que dar o corpo ao manifesto pelas causas da nação?

Parece que estou a ver as minhas amigas a rasgar tudo quanto paira em cima da mesa de trabalho, num esgar de raiva pela minha ousadia: - Ora aquele merdas, não queria vir aqui pr’os AllGarbs chupar na teta?! Que trabalhe! Vá trabalhar, seu merdas.

2 comentários:

fernando disse...

essa atitude é a de um verdadeiro macho lusitano

Virgílio A. P. Machado disse...

Como o compreendo. Tem toda a minha empatia.

Acredite que é verdade: aquela citação sobre o monasticismo foi feita e enviada antes de ler estas suas «Contas».

Há por aí alguma organização chamada Contraria?